Nos últimos dois anos, mais de 170 animais foram resgatados e acolhidos pelo CCZ. Parte deles permanece na unidade por determinação judicial, impedindo a adoção e reduzindo a disponibilidade de vagas
A crescente quantidade de denúncias de maus-tratos contra animais tem escancarado um problema enfrentado por Araçatuba: a falta de locais para acolher cães e gatos resgatados. A situação já afeta não apenas as organizações de proteção animal, mas também o próprio poder público, que enfrenta dificuldades para retirar animais de situações de risco por falta de espaço para abrigá-los.
Uma das principais ONGs da cidade, que há mais de 15 anos atua no resgate, tratamento e adoção de cães e gatos, vive atualmente um dos momentos mais críticos de sua história. São mais de 200 animais acolhidos, número muito acima da capacidade do abrigo. Alguns cães precisaram ser levados para hotéis e muitos voluntários mantêm animais em lares temporários para evitar que fiquem desassistidos.
Segundo a voluntária Mariana Calarge, a sensação é de que o trabalho nunca termina. “A gente pega uma ninhada, consegue doar dez animais, todos castrados ou com castração garantida, e na semana seguinte chegam mais dez. É uma bola de neve sem fim. Cada voluntário tenta ajudar como pode, levando animais para casa, mas todos os protetores estão saturados”, relata.
A superlotação não é uma realidade exclusiva da ONG. Outros abrigos da cidade também estão no limite, o que dificulta o atendimento das denúncias de maus-tratos. Em muitos casos, mesmo quando a fiscalização identifica situações graves, os animais não podem ser retirados do local.
“A gente encaminha muitos casos para a Zoonoses. Eles fazem o atendimento, mas muitas vezes não conseguem retirar o animal ou responsabilizar o tutor porque simplesmente não existe um lugar para levá-lo”, explica Mariana.
O problema também preocupa o Conselho Municipal de Defesa e Proteção Animal. A presidente do órgão, Mariana Oliveira, afirma que a falta de estrutura impede que diversas denúncias tenham uma solução efetiva.
“Existem várias denúncias registradas tanto na Polícia Civil quanto no Centro de Controle de Zoonoses, mas os animais não podem ser retirados porque não há um local adequado para recebê-los. Hoje não existe um centro de reabilitação ou um abrigo municipal para esses casos”, afirma.
Segundo ela, o Conselho já apresentou ao prefeito Lucas Zanatta um projeto para a criação de um centro de reabilitação destinado exclusivamente aos animais vítimas de maus-tratos e de apreensões judiciais.
“A proposta não é criar um abrigo para qualquer animal encontrado na rua. A ideia é ter um espaço específico para receber animais de busca e apreensão e vítimas de maus-tratos, permitindo que as fiscalizações tenham efetividade e que esses animais possam ser recuperados”, explica.
Cenário preocupante
A realidade também é preocupante no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). Atualmente, cerca de 30 animais estão abrigados na unidade e todas as vagas disponíveis já estão ocupadas.
A médica-veterinária Andresa Xavier explica que o município estuda ampliar a estrutura, mas lembra que a principal missão do CCZ é o controle de zoonoses, e não funcionar como abrigo permanente.
“Já existem estudos para ampliação das baias e criação de novas vagas, mas é importante lembrar que o foco da Zoonoses é trabalhar com doenças transmitidas dos animais para as pessoas. O abrigo de animais não é nossa principal função”, ressalta.
Nos últimos dois anos, mais de 170 animais foram resgatados e acolhidos pelo CCZ. Parte deles permanece na unidade por determinação judicial, impedindo a adoção e reduzindo a disponibilidade de vagas para novos resgates.
Para minimizar o problema, o Centro promove feiras de adoção sempre que possível. Segundo Andresa, além desses eventos, qualquer pessoa interessada pode adotar um animal diretamente no CCZ.
“O Centro de Controle de Zoonoses é aberto para adoção de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 17h, sem fechar para o almoço. Basta apresentar um documento com foto e comprovante de residência. Após uma entrevista, a pessoa já pode sair com um novo companheiro”, explica.
Na tentativa de encontrar soluções para a crise, representantes da Prefeitura de Araçatuba, do Conselho Municipal de Defesa e Proteção Animal e de organizações da sociedade civil realizaram uma reunião para discutir alternativas que ampliem a capacidade de acolhimento dos animais resgatados e fortaleçam as políticas públicas de proteção animal no município.
Por Vitor Moretti



