Especialista de Araçatuba aponta crescimento do uso de crédito bancário comum no campo e alerta para juros elevados, contratos complexos e aumento do risco financeiro no agronegócio.
O agronegócio segue como um dos principais motores da economia na região de Araçatuba, sustentando exportações, geração de empregos e movimentando milhões de reais todos os anos. No entanto, por trás dos números positivos da produção agrícola, cresce uma preocupação silenciosa no campo: o aumento do endividamento entre produtores rurais.
Com custos de produção cada vez mais altos e maior dificuldade de acesso às linhas tradicionais de crédito rural, muitos produtores têm recorrido a financiamentos bancários comuns para manter a atividade funcionando. O problema, segundo especialistas, é que essas operações possuem características bastante diferentes das modalidades específicas destinadas ao setor agropecuário.
A advogada especialista na área do agronegócio em Araçatuba, Evelyn Nogueira Martins, explica que grande parte dos produtores acaba acreditando que qualquer financiamento destinado à produção agrícola pode ser considerado crédito rural, quando na prática existem diferenças importantes entre as operações.
Segundo ela, o principal risco está justamente na contratação de cédulas bancárias comuns, que seguem regras do mercado financeiro tradicional e não possuem as mesmas garantias previstas no Manual de Crédito Rural.
“A atividade agrícola possui um ciclo próprio. O crédito rural foi criado justamente para acompanhar essa realidade do campo. Já as operações bancárias comuns costumam ter juros mais altos, vencimentos menos compatíveis com a produção e menos proteção jurídica ao produtor”, afirma a especialista.
Ela destaca que o crédito rural tradicional possui características específicas, como taxas subsidiadas, possibilidade de prorrogação em situações excepcionais e condições financeiras pensadas para períodos de safra, comercialização e investimentos no campo.
Já nas operações bancárias comerciais, os encargos financeiros costumam ser muito mais agressivos. Além dos juros elevados, existe uma capitalização mais acelerada da dívida, o que acaba ampliando rapidamente o valor devido ao longo do tempo.
De acordo com Evelyn, muitos produtores conseguem manter uma boa produtividade e até alcançar safras positivas, mas acabam comprometendo grande parte da renda com os custos financeiros dos financiamentos contratados.
“O superendividamento rural nem sempre começa na lavoura. Em muitos casos, ele nasce na estrutura do crédito contratado e na velocidade com que essa dívida cresce ao longo dos anos”, explica.
Outro fator que agravou o cenário financeiro do agronegócio nos últimos anos foi o aumento expressivo dos custos de produção. Fertilizantes, defensivos agrícolas, combustível, máquinas e outros insumos registraram altas significativas, elevando o investimento necessário para manter a produtividade.
Na prática, isso significa que o produtor passou a gastar muito mais para produzir a mesma quantidade. Mesmo em períodos de clima favorável e boa colheita, o lucro nem sempre acompanha o desempenho da produção.
A especialista ressalta que atualmente o produtor rural enfrenta uma realidade muito mais complexa do que apenas plantar e colher. Além das questões climáticas, ele também precisa lidar diariamente com volatilidade cambial, oscilações do mercado internacional e gestão financeira da propriedade.
Segundo ela, muitos financiamentos acabam sendo contratados em momentos de necessidade imediata, sem uma análise aprofundada dos impactos futuros daquela dívida.
“Hoje o crédito rural exige uma avaliação multidisciplinar. Não envolve apenas a necessidade do recurso, mas também planejamento financeiro, análise jurídica do contrato e compatibilidade da dívida com o ciclo produtivo”, pontua.
Ainda de acordo com a advogada, uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo setor atualmente é justamente a complexidade das operações financeiras disponíveis para o agro.
Outro ponto destacado pela especialista é que, em diversos casos, produtores conscientes das vantagens do crédito rural acabam não conseguindo acesso às linhas específicas por conta das exigências bancárias mais rígidas e da limitação na liberação de recursos.
Esse cenário acaba levando parte do setor a recorrer ao crédito comercial tradicional como única alternativa para manter o custeio da produção, compra de insumos e investimentos na propriedade.
Para Evelyn, o avanço tecnológico do agronegócio brasileiro trouxe ganhos importantes em produtividade e eficiência, mas a sustentabilidade financeira da atividade ainda depende de maior planejamento e segurança contratual. Ela defende que produtores rurais busquem orientação técnica antes da contratação de financiamentos, principalmente em operações de maior valor ou longo prazo.
Enquanto o setor segue batendo recordes de produção em diversas culturas, especialistas alertam que a saúde financeira do produtor rural precisa receber a mesma atenção dedicada ao aumento da produtividade.
Por Wesley Pedrosa



